O primeiro painel da programação do primeiro dia, “Os desafios de fazer Ciência na Amazônia”, foi aberto pelo presidente do CONFIES, Fernando Peregrino, que justificou a ausência do professor Carlos Nobre, cientista, professor da USP. Em razão de um tratamento de saúde, Nobre lamentou não poder participar do evento, mas mandou um vídeo documentário sobre sua tese, Amazônia 4.0, e que foi exibido nos trinta primeiros minutos do painel. A reitora da UNIR Marcele Regina Pereira, que presidiu a mesa e após o documentário, passou a palavra ao reitor da UFPA, Emmanuel Tourinho.

Tourinho prefaciou sua apresentação falando sobre aspectos, no cotidiano científico da Amazônia, que nem sempre vêm ao primeiro plano. “Acho muito importante colocar um peso especial no fato de que a Amazônia, para além de ser uma floresta, um bioma, é um território ocupado pelos povos da Amazônia, que são vários, diversos, ricos em suas culturas, histórias, contribuições e capacidades de proteger a floresta! Há uma riqueza enorme nesta região que é pouco conhecida e menos ainda valorizada, apoiada. Esses povos têm necessidades e visões próprias do que necessitam e que é necessário ao futuro da região e da própria floresta”, iniciou. “Só haverá futuro para a Amazônia se esse futuro passar pelos amazônidas, pelos povos da Amazônia! Não haverá nenhum futuro, nem este pensado pela vertente que se preocupa com a preservação, pela conservação, se não for um futuro construído pelos povos e Instituições aqui sediados”.

“É um enorme desafio fazer Ciência no Brasil hoje!”, continuou. “Após décadas de um esforço extremo das Instituições e de pessoas, pesquisadores, de todos que se preocupam com a construção de um sistema sólido, capaz, eficiente de Ciência e Tecnologia, hoje, esse sistema vive asfixiado, sem recursos e apoio; com tentativas recorrentes de desqualificação de seu trabalho e com todas as consequências decorrentes disso”. Tourinho citou o esforço, por parte das Universidades estrangeiras, de absorver pesquisadores brasileiros, em um claro reconhecimento a essa mão de obra qualificada – em contraponto à sufocante situação atual brasileira e daqueles que fazem Ciência no país. O reitor da UFPA também demonstrou números relacionados às 69 Universidades Federais brasileiras, comparando com os crescentes investimentos em C&T nas universidades estrangeiras. O Brasil está na contramão do mundo, uma vez que o investimento em Ciência demonstra preocupação com a qualidade de vida suas nações, com a competitividade de suas economias e, como se não bastassem esses enormes desafios, ainda se enfrenta as dificuldades próprias da realidade Amazônia.

Emmanuel Tourinho fez referência também aos desafios de a Amazônia ser uma região com proporções continentais. Essa enorme extensão, que abriga a floresta, tamanha biodiversidade, é uma região de enorme desigualdade, dos piores indicadores sociais, o pior IDEB, o pior IDH, os piores indicadores de saneamento básico. “Problemas que cidades europeias resolveram há 200, 300 anos, ainda são desafios cotidianos para os povos da nossa região. Não é possível sair dessa condição sem muita Ciência e Tecnologia na Amazônia e há inúmeras Instituições, aqui sediadas, dedicadas à superação desses problemas – universidades, públicas e institutos de pesquisa”. Em seguida, Tourinho esmiuçou os dados da UFPA, lembrando que a “realidade da UFPA se reproduz em muitas outras [instituições de ensino superior], que enfrentam desafios adicionais aos enormes desafios já compartilhados pela comunidade científica nacional. Quem formula as políticas públicas não tem noção das realidades e peculiaridades geográficas”, continuou, detalhando que para chegar aos quatro cantos do estado, a UFPA investe alto, uma vez que os caminhos nem sempre são pavimentados – rios são ruas e vencê-los nem sempre é tarefa simples.

“Fazer esta universidade tem um custo muito mais alto – para se chegar aos lugares, para fazer com que os insumos cheguem a esses lugares”. Há muitos desafios políticos também: assimetria na distribuição dos recursos de Ciência e Tecnologia no país, enfatizou.

Pauta permanente

“Há uma suposição de que somos um ‘vazio demográfico’, o que não é verdade”, afirmou Emmanuel Tourinho. “Uma agenda para Amazônia interessa a todo o Brasil, por sua biodiversidade, riqueza e por ser a última fronteira. Não será positivo trazer entes externos para explorar apenas. Não prezamos por esses grandes projetos somente voltados a atender outras regiões do país. Essa agenda precisa ter voz ativa dos povos tradicionais da Amazônia. Nós dependemos de pesquisadores de todos os lugares, mas é preciso dar um apoio e reconhecer o papel da inteligência local”, disse.

A reitora Marcele Regina Pereira adicionou ao debate sua preocupação com o olhar destinado às necessidades amazônidas. “Há um enorme contraponto entre gasto e investimento. Despesas de educação são vistas como gastos – é a mesma lógica para CT. Quando se trata da Amazônia, poucos entendem que é investimento! Que levem em consideração as particularidades, as peculiaridades. As quantidades de pesquisas precisam de fomento com planejamento”, declarou. Há que se pensar em projetos que tenham planejamentos e investimento”, disse.

Pereira, por fim, agradeceu o convite e enfatizou que a UFPA “é uma Instituição/Inspiração na busca por melhores resultados”.

Para assistir o documentário do professor/pesquisador Carlos Nobre, clique aqui.