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03/12/2018 9h46 - Atualizado em 03/12/2018 9h46
Pesquisa gera o livro "A Humanidade e a Amazônia: 11 mil anos de evolução histórica em Carajás".
Da Redação
Portal FADESP
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Localização das Serras Norte e Sul, em Carajás.
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Trabalho arqueológico na região de Carajás.
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Professor Marcos Magalhães, coordenador do projeto de pesquisa que gerou o livro.
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APOIO FADESP: pesquisa gera o livro "A Humanidade e a Amazônia: 11 mil anos de evolução histórica em Carajás".

Agência Museu Goeldi - O imaginário e as narrativas midiáticas constroem a ideia de que a maior floresta tropical do mundo é um local intocado, com poucos traços de intervenção humana, até a invasão europeia no século XV. Mas, pesquisas arqueológicas realizadas por cientistas do Museu Emílio Goeldi no Estado do Pará mostram o contrário: indícios coletados na Serra dos Carajás apontam que a interferência indígena na Amazônia já ocorria de forma intensa há mais de 11 mil anos. Em diferentes lugares, antigas populações indígenas selecionaram e manejaram plantas úteis. E suas práticas resultaram em paisagens que até então eram consideradas naturais. Este processo cultural de milênios de simbiose entre populações humanas e florestas é um legado que vem sendo desvelado pelo avanço da ciência.

A teoria de como a colonização humana na Amazônia iniciou e como ocorreu é apresentada e discutida no livro A Humanidade e a Amazônia: 11 mil anos de evolução histórica em Carajás, coletânea de estudos organizados pelo pesquisador Marcos Pereira Magalhães, que atualmente lidera os estudos arqueológicos nesse campo em Carajás, e que foi lançada pelo Museu Goeldi no dia 28 de novembro.

A obra – É constituída por oito artigos científicos que apresentam os resultados recentes de mais de 30 anos de pesquisas envolvendo arqueologia e etnobotânica. A equipe interdisciplinar de pesquisadores traz novos elementos ao debate científico acerca da hipótese de que parte da cobertura vegetal da floresta Amazônia foi cultivada por populações indígenas pré-históricas.

Ao relacionar as investigações arqueológicas com estudos botânicos na Serra dos Carajás, os autores reconfiguram e aprofundam as discussões sobre a primeira colonização humana na Amazônia, refutando visões tradicionais que desconsideram a influência de povos caçadores-coletores, ocupantes da região bem antes das populações que originaram tradições ceramistas sofisticadas conhecidas como Marajó, Aristé, Santarém, Konduri e Maracá.

Por meio de uma rigorosa investigação arqueobotânica nas Serras Sul (porção S11D) e Norte (platôs N1, N2 e N3) de Carajás, Marcos Magalhães e seus parceiros desenvolveram a teoria de que a evolução histórica do homem teria passado por dois grandes processos de formação.

O primeiro deles, que chamou de Cultura Tropical, corresponde à chegada do homem na Amazônia, há cerca de 11.600 anos. Tratava-se de populações formadas por caçadores-coletores, "que ainda não tinham uma tecnologia da cerâmica, nem uma agricultura sistematizada, mas teria sido justamente eles que iniciaram o manejo e a seleção cultural de plantas, inclusive cultivos incipientes por semeaduras", explica Marcos Magalhães.

A frequente manipulação das plantas, o conhecimento daquelas mais interessantes para o uso, a consequente domesticação e as diversas transformações culturais ao longo do tempo deram origem a um novo período histórico com diferentes níveis de complexidade, chamado no contexto das pesquisas de Cultura Antropical. Essa última "está relacionada às populações que conhecemos mais tradicionalmente dentro da arqueologia, que são aquelas que produziam cerâmicas sofisticadas e se organizavam em grandes aldeias, enquanto que a anterior, não", pontua Marcos Magalhães.

Herança - As populações que viveram neste período, há cinco mil anos até o presente, herdaram a sapiência do homem da Cultura Tropical, aprimorando as técnicas de produção dos objetos e o cultivo sistemático de espécies vegetais, fundamentais para a definição da cobertura vegetal, da composição do solo e das paisagens da floresta que abriga a maior biodiversidade do planeta.

"Nosso viés de pesquisa sempre foi o impacto humano sobre a Amazônia, a partir da perspectiva da cobertura vegetal. Nós percebemos que esse impacto humano existe desde o início e que no princípio foi positivo", afirma Magalhães. O arqueólogo explica que o conhecimento sobre a flora Amazônia, acumulado ao longo de 11 mil anos, foi construído a partir das necessidades humanas, especialmente as medicinais, alimentares e de construção.

Este fator, segundo Marcos Magalhães, agrega um valor de capital imensurável à floresta amazônica. Este capital está severamente comprometido com o avanço da devastação da cobertura vegetal para o cultivo de soja e para a pecuária. "Imagine que ao longo de 11 mil anos essas pessoas foram conhecendo e selecionando aquelas plantas. Hoje, não conhecemos muitas das suas utilidades, pois esse conhecimento foi perdido a partir da invasão europeia, com a imposição de uma outra cultura", pondera Magalhães.

Para o pesquisador do Museu Goeldi, a floresta conservada tem muito mais valor de capital, sobretudo à indústria farmacêutica, do que uma monocultura, por exemplo. "Eu falo de uma floresta de origem antrópica, ainda que não saibamos para que serve aquela planta que ali está cercada de outras plantas úteis, podemos imaginar que ela provavelmente também tem a sua utilidade", explica Marcos.

Debates e Lançamento – O livro "A Humanidade e a Amazônia" foi lançado na tarde do dia 28, após a realização do Café com Ciência, que trouxe como tema "Os 6 Anos do Projeto Arqueológico Carajás (PACA): resultados e avanços". Os dois eventos, Café com Ciência e Lançamento do livro, aconteceram no Auditório Paulo Cavalcante, localizado no Campus de Pesquisa do Museu Goeldi.

A edição especial do Café Com Ciência desta vez teve a forma de um seminário, onde os palestrantes abordaram seis assuntos relacionados ao conhecimento científico produzido pelo PACA: "Da Experiência à Pratica Metodológica", que será apresentado por Vera Guapindaia; "Plantas Úteis de Carajás: de 11 mil anos até os nossos dias" por Ronize Santos e Pedro Glécio Lima; "A Indústria Lítica de Carajás", por Renata Maia, Amauri Matos e Kelton Mendes; "A Cerâmica Arqueológica nos Sítios de Carajás", por Jéssica de Paiva, Hannah Nascimento e Tatiane Gama; "Escolhas e Usos Sociais das Cavidades de Carajás", Carlos Augusto Barbosa; e "Estudo sobre as Pessoas e as Coisas do passado em Carajás", por Gabriela Mauriti.

As palestras giram em torno de pesquisas que resultaram em contribuições acadêmicas, como 4 dissertações de mestrado e 6 teses de doutorado sobre a importância das populações pioneiras na construção da Floresta Amazônica. 

Os dois ventos marcam o encerramento das atividades do Projeto Arqueológico Carajás - PACA. O projeto encerrou suas atividades de pesquisa neste mês de novembro. O programa atuou em diferentes linhas de investigação dos vestígios do passado humano na Serra dos Carajás. Além dos estudos etnobotânicos e de análise sobre a formação antrópica do solo, há também pesquisas sobre tecnologias lítica e cerâmica, a ocupação e uso simbólico das cavidades e a formação de modelos preditivos.

O PACA investigou as serras Norte e Sul de Carajás. O trabalho em conclusão em 2018 foi desenvolvido pelo PACA Sul, que atuou na porção S11D da Serra Sul. O outro, conhecido como PACA Norte, foi encerrado em 2017 e desenvolvia estudos nos platôs N1, N2 e N3 da Serra Norte.

O livro "A Humanidade e a Amazônia" é um dos produtos concebidos no projeto. Além de dissertações, teses e artigos, o PACA já lançou o livro Amazônia Antropogênica, e produziu a Exposição Origens, como também marcou presença em diversos eventos científicos nacionais e internacionais. O projeto do Museu Goeldi contou com o apoio da Vale e da Fundação de Amparo e Desenvolvimento à Pesquisa.

Texto: Mayara Maciel e Joice Santos

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